Causos
Aos 87 anos, Seu Chico guarda na memória histórias que ouviu ou viveu
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Quando cheguei ao Bairro da Piedade, zona rural de Caçapava, ele já estava sentado no banquinho de alvenaria em frente a um comércio ainda fechado, pronto para o compromisso.
Assim que me apresentei, Seu Francisco de Abreu (ou Chico Abreu como é conhecido) disparou a contar seus causos, justificando porque é considerado uma celebridade no lugarejo.
Autor da moda “Desastre da ponte”, a composição conta a tragédia vivenciada por ele no bairro. Foi no ano de 1971, durante da realização da Festa da Piedade. Na ocasião, o padre convidou a população a participar de uma procissão e quem conseguiu lugar, subiu num caminhão.
Ao passar pela ponte sobre o ribeirão, o caminhão colidiu com um outro que trazia doces para abastecer o comércio local. A festa religiosa acabou com 5 mortos e 40 feridos e a fatalidade foi eternizada nos versos do Seu Chico.
“Dia 8 de setembro
Esta história eu vou contar
Na festa da Piedade
Padroeira do lugar.
A festa ´tava´ animada
Tinha muita gente lá
Aconteceu um fato triste,
Que eu nem gosto de ´alembrar´...”
(“Desastre da ponte”, compositor: Chico Abreu)
A moda ficou conhecida e costumava ser pedida nas rodas de viola que aconteciam no Mercado Municipal de Caçapava. Conhecida também era a dupla “Zé do Porto e João Goiás”, que Seu Chico formou por muitos anos com seu irmão. Na casa onde mora atualmente o retrato da dupla está bem ao lado do altar com variadas imagens, a foto dos pais e da esposa, falecida há 8 anos.
Da casa dele, fomos a pé até a pracinha do bairro, onde estão a igreja de Nossa Senhora da Piedade e o coreto, que já foi palco de muitas manifestações religiosas, artística e de comícios políticos em épocas de eleição. Durante a caminhada, Seu Chico esbanjava vitalidade e memória invejáveis. A cada cinco passos parava e declamava uma moda, um verso, uma saudade.

Vida de cineasta
Foi no caminho também que ele contou que gravou filmes no Bairro da Piedade. Criava as histórias, o roteiro, escolhia o elenco e dirigia a gravação. Um deles foi sobre os escravos. E para quem duvida deste talento, ele avisa: “Tenho tudo gravado lá em casa!”.
Já na praça, Seu Chico Abreu contou a história da formação do bairro, lembrada com detalhes do que foi narrado a ele pelos antepassados: a praça que antes era uma lagoa, o cafezal ao redor, as excursões para Aparecida em carro de boi, o encontro da imagem de Nossa Senhora da Piedade, a autorização do fazendeiro dono das terras para a construção da igreja (1906) e da praça e, tempos depois – o roubo da imagem de bronze que nunca mais voltou para Piedade.
Foram muitas histórias, mas uma delas eu tenho que destacar:
O dia que o saci visitou a casa do vô!
Vida na roça era assim: dormia na esteira estendida no chão e, sem energia elétrica, “quentava” o fogo até o sono vir. O avô do Seu Chico trabalhava com taquaras... fazia balaios, peneiras e amava uma viola. Mas como não tinha dinheiro pra comprar o instrumento, resolveu fazer uma de taquara mesmo. Sentado em uma tripeça (assento sem encosto), os acordes tirados da viola improvisada ajudavam a aliviar o cansaço e embalar a noite.
Um certo dia, já adormecido, o avô contou que acordou com um som leve vindo do tal viola. Foi quando percebeu que lá estava ele: O Saci! E o ousado molequinho estava sentado na tripeça e com a viola na mão! Depois... desapareceu!
Armadilha pra Saci
Foi então que o avô resolveu preparar uma armadilha na noite seguinte para flagrar o fujão. Ao lado do banquinho e da viola deixou um “pito” aceso e fingiu estar dormindo. À meia-noite, o Saci voltou, sentou na tripeça, pegou a viola e experimentou o pito! Mas não é que ele ficou tonto!
Foi nesta hora que o avô puxou a viola e foi para cima dele. “O Saci deu um rodopio no ar, fez um rodamoinho e sumiu!”, conta seu Chico Abreu na maior empolgação! Com a confusão, a avó acordou e ao ver a fumaça gritou que a casa estava incendiando! Mas logo foi tranquilizada pelo marido: “Não mulher, é só o Saci que tava pitando fogo”!
Se alguém duvidar desta história, é só perguntar para o Seu Chico e confiar na resposta:
“Se Saci existe? Já existiu... ou talvez ainda exista!”
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