Outras histórias

Muro dos Escravos: lendas e verdades sobre a parede de pedras erguida há 200 anos

Bia Lara

3 de set. de 2023

5 min read

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Sem registros históricos até então oficializados, meu ponto de partida para reunir informações sobre o Muro dos Escravos foi buscar pessoas que tivessem alguma ligação direta com aquele local ou mesmo relatos deixados por seus antepassados. E foi assim, buscando indicação, que cheguei à história da família de Cristina Irie, vivida em parte dentro da propriedade onde foi erguido o Muro dos Escravos.

Foi em meados da década de 1960, que o pai de Cristina, Seu João Pio Barbosa foi contratado para trabalhar na Fazenda Pedra Branca. Tanto a muralha quanto as histórias sobre os escravos que viveram por lá, também habitaram a infância e o imaginário dela e dos sete irmãos.

Ela morou por lá com a família até seus 13 anos, e durante este tempo colecionou diversas histórias ouvidas sobre a propriedade e os escravos que viveram no local, há cerca de 200 anos. Muitas delas foram relatadas pelo Sr. Lourival, filho do primeiro proprietário, Sr. Alfredo Bittencourt. Além da Fazenda Pedra Branca, a família foi dona de mais de 770 alqueires, ao redor, terras que aos poucos foram sendo divididas e vendidas.

Já idoso, Lourival Bittencourt foi professor de Catequese de Cristina e de outras crianças que viviam em fazendas vizinhas, e vinha dele boa parte das histórias sobre o Muro e o período de escravidão. Uma delas é sobre a Capela dos Bexiguentos, erguida após a morte de muitos escravos vítimas de uma doença que atacava a bexiga.

“A mãe contava que foram tantos os mortos, que corpos eram levados até uma vala perto de onde foi construída a Capela, em “carrinhos de mão” e depositados lá. E ainda, diziam que alguns deles tentavam voltar e eram vistos pela estrada”, conta Cristina.

O que se acredita hoje é que o que se via pelo caminho não eram “almas penadas” e sim, doentes que haviam sido colocados na vala antes mesmo de morrerem. Apesar do esforço para retornar, de tão debilitados, acabavam não resistindo e morrendo durante o percurso.

Estes relatos e muito outros, ouvi diretamente daquelas crianças que moraram ou eram vizinhas da Fazenda Pedra Branca, há mais de 50 anos. E foi a convite de Cristina, do marido Roberto Irie, do irmão Antônio Carlos, do amigo de infância João Amaral e da guia turística Cristina Ferreira, que seguimos a pé - por 6 km - do Bairro Boa Vista até a propriedade. O objetivo era encontrar alguém na Fazenda que pudesse autorizar nossa entrada para que o grupo contasse “in loco”, como era a vida por lá e como o local está hoje, além de descobrir mitos e verdades sobre o Muro dos Escravos.

A volta à propriedade e o reencontro com o Muro dos Escravos

Chegamos à porteira da Fazenda Pedra Branca e fomos recebidos pelo atual proprietário, Seu Paulo, e seu fiel e grande escudeiro, o cão Órion. Foi então que todas as lembranças de Cristina e seus companheiros vieram à tona: o local onde ficava a escolinha, os janelões hoje com grades, mas com a mesma vista que remete ao passado, o porão, o túnel de pedras e o terreiro, cenário de muitas brincadeiras...

Em uma visita pela casa e pela área da propriedade, cada pedacinho de construção e de terra despertava em Cristina e seu irmão lembranças, que vão desde as brincadeiras e da escolinha que funcionava no local, até a ajuda aos pais nas tarefas diárias na casa e na roça.

Alguns locais dentro da propriedade, como a senzala, nem Seu Paulo chegou a conhecer porque já haviam sido modificados mesmo antes da aquisição, há cerca de uma década. Quanto ao muro, o que restou dele é cuidado pessoalmente pelo atual proprietário. A antiga fazenda cafeeira já não produz, mas o que resta da muralha continua em pé, graças à manutenção solitária do atual proprietário.

Vale destacar aqui, alguns relatos que o próprio Seu Paulo angariou antes mesmo da aquisição:

 “O Muro teria sido erguido sim por escravos, mas não como forma de punição ou para aplicar castigos, e sim para proteger a propriedade de inundações”.

 

“Os escravos que teriam trabalhado lá seriam de origem muçulmana, letrados e com conhecimento técnico para realização do trabalho”.

 

E agora: O que diz a História sobre isso?  O que é mito e o que é realidade?

 Segundo levantamento histórico da Secretaria de Cultura e Turismo de Caçapava, o Muro dos Escravos é um patrimônio arqueológico, localizado em uma propriedade particular. Sua construção é atribuída à mão de obra escrava, mas com uma peculiaridade:


 “As pedras do muro trazem inscrições de assinatura de escravizados muçulmanos (Malês). Por serem alfabetizados - entre outras habilidades -, pagava-se mais por eles. Trata-se de trabalho muito bem feito, muito pesado, muito custoso de ser realizado. A técnica utilizada na construção é a da pedra seca, quando não há uso de argamassa; as pedras são extraídas de rochas matrizes existentes na região, no caso, foi retirada da Cachoeira dos Bexiguentos”, conta a turismóloga Clarissa Ribeiro.


Ainda segundo o levantamento, a mesma cachoeira (que está localizada próxima ao Muro dos Escravos) era utilizada pelos escravizados, tanto para a higiene, como para o trabalho e rituais em honra às suas divindades.

Curiosidade histórica: O professor Edy Carlos cita em seu artigo “Clareira na Mata” que, segundo Azevedo Marques, quando a Estação de Trem foi inaugurada em Caçapava, em 1º de outubro de 1.875, a cidade somava 8.790 almas, incluindo 1.602 escravos e 272 “fogos” (casas).

Fonte: SCT de Caçapava

 

Segundo a Doutora em História e Docente-Pesquisadora da Univap e autora do livro “Escravidão e Pós Abolição no Vale do Paraíba Paulista”, Maria Aparecida Papali, os tais “bexiguentos” teriam sido vítimas da varíola, doença endêmica que circulava na África.

A varíola veio para o Brasil quando primeiros escravos começaram a chegar por aqui. A pesquisadora conta que, na época, até havia uma lei que obrigava os escravos desembarcados a ficarem em quarentena. “Mas eles não ficavam… as pessoas que vendiam estes escravos queriam fazer ´o negócio´ o mais rápido possível”.

Assim, muitos deles trouxeram a doença e ela se disseminou, a ponto de terem sido registradas várias epidemias de varíola. Inclusive aqui, na região do Vale do Paraíba, durante todo o período colonial e mesmo durante o Império, conta a professora.


“Uma delas aconteceu especificamente em Taubaté, entre 1.873 e 1.874 e deixou muitas mortes. Começou no Rio de Janeiro, pegou algumas cidades próximas como Queluz, mas foi muito forte em Taubaté...”

 

E a Dra. Maria Aparecida Papila destaca uma outra questão: “E quem morria mais? Essa era uma doença que não escolhia classe, cor, gênero… mas matava os mais debilitados, idosos, crianças... os mais vulneráveis, com menos imunidade”.

Ela conta ainda que os hospitais daquela época não eram locais de cura, como hoje, eram “depósitos de doentes”, segregação, isolamento... “As pessoas tinham medo de ir para o hospital. Até porque não tinham normas de higiene como hoje. As mãos daquela pessoa que cuidava de um doente aqui, eram as mesmas que cuidavam de outro ali. Era um lugar que, às vezes, disseminava ainda mais a doença.

 Os Malês

Apesar de confirmar que o Brasil tinha sim escravos muçulmanos, a pesquisadora revela que não existem evidências que eles vivessem no Vale do Paraíba em grande número. A passagem histórica mais marcante sobre eles em solo brasileiro ocorreu na Bahia, durante a chamada “Revolta dos Malês”, na década de 1830.

O assunto vale uma leitura mais aprofundada e, se ficou curioso (a) para saber mais, sugiro a pesquisa no link: https://brasilescola.uol.com.br/historiab/revolta-males.htm

Apesar de não serem letrados como os mulçumanos, o conhecimento para fazer variadas atividades foi uma das características dos escravos no Brasil. “Se colocou o trabalho escravo em várias frentes… O escravo não foi trabalhar só na fazenda, só na enxada... ele trabalhou como pedreiro, como carpinteiro, como vendedor na rua, como sapateiro. Então, desenvolveu técnicas também de aprendizado em vários tipos de profissões”. Diferente, do que ocorreu no sul dos EUA, por exemplo, onde o escravo era utilizado na lavoura ou no trabalho doméstico.

 Construção hoje é marco na rota do Cicloturismo

Depois de tanta história sobre o Muro dos Escravos é hora de destacar o destino que vem sendo dado a ele da “porteira pra fora”. Hoje, o percurso entre o Bairro Boa Vista e o Muro dos Escravos é diariamente percorrido por ciclistas e turistas andarilhos que buscam desafios, aventura e belas paisagens. Mas poucos que passam por lá conhecem a real história do que restou da muralha de pedras.

A sugestão para esta reportagem foi justamente de um destes adeptos do esporte que já passaram pelo local. O empresário, professor de Educação Física e treinador de ciclistas de alta performance, Renato Jardim, se viu intrigado ao perceber como aquele muro chamava a atenção e se tornava cenário para as fotos publicadas nas redes sociais.

Foto: Arquivo pessoal

O professor conta que conheceu o local há uns quatro anos a convite de um grupo de amigos ciclistas que chamam o percurso de “Rota do Muro dos Escravos”. Eles saíram de bike da Estrada do Luso (Clube de Campo Luso Brasileiro, em São José dos Campos) em direção à muralha e depois retornaram, completando cerca de 100 km de pedalada.

“Eu perguntei a várias pessoas, inclusive o organizador da rota sobre a história do Muro, o que significava aquela construção, se realmente tinha sido construída por escravos, mas não encontrei respostas. Então, achei que o assunto merecia uma reportagem”, explica Renato Jardim.

Foto: Arquivo pessoal

O industriário João José de Aguiar Garcia é outro aventureiro que costuma escolher a trilha em seus treinos sobre duas rodas. “É um dos pedais que mais gosto de fazer. Tem a superação depois de vencer a subida dos morros para depois desfrutar das paisagens. Foi umas das primeiras rotas que fiz e gosto dela até hoje”.


E você? Ficou curioso para conhecer o lugar? Tem alguma informação a mais ou fato que possa incrementar a reportagem? Compartilha aqui comigo e vamos juntos eternizar esta história!

Obrigada pela companhia!

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