Causos
O case de um homem do campo e um causo pelos caminhos da roça
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Os causos contados pelo Seu Deusdedit José da Silva começam na escolha de seu nome. Não apenas pelo seu significado: dado por Deus, mas sobre quem o escolheu: o padre, que tinha o mesmo nome. É que na cidade onde nasceu, Carvalhos (MG), não havia cartório na época e quem fazia o registro era o próprio sacerdote.
Tudo começou com o nome que havia sido escolhido pelo pai e considerado pelo padre como muito complicado, de difícil pronúncia. Então, para descomplicar, o religioso sugeriu seu próprio nome: Deusdedit!

Com um sorriso largo, muito bem alinhado, óculos escuros, vasto vocabulário e uma história de vida cheia desafios, este mineiro, trabalhador rural, veio para o Vale do Paraíba com apenas um ano de idade, e já na infância ajudava a família na colheita do café. A luz elétrica chegou em sua casa já na adolescência, quando também teve seu primeiro registro na Carteira de Trabalho.
A lida no campo
Acompanhou também todas as transformações na propriedade onde trabalhava: da renda vinda do plantio e colheita à implantação do gado leiteiro. Mesmo tendo estudado até a antiga 4ª série, Seu Deusdedit se tornava especialista em tudo que se propunha a fazer. Era ele o responsável pela análise do leite que garantia a qualidade do produto encaminhado à cooperativa. Serviço que exigia despertar às 3h30 para assumir a lida.
Fez curso extras como datilografia e outros técnicos pelo Senai, mas boa parte do aprendizado foi estudando sozinho, incentivado pelo que ouvia dos pais e avós. “Aprendi muito com as pessoas mais velhas que não sabiam nem ler nem escrever, mas tinham muito conhecimento da vida. Eles diziam: a estrada que eu passei, você ainda não passou”, conta.
Os avós ´Zé Bastião´ e Dona Maria Isabel são até hoje referência para Seu Deusdedit. É do avô a frase mais inspiradora que ouviu sobre Educação:
“O cipó se tem que torcer quando é novo, porque depois que fica velho, ele quebra”
O mar depois dos 60
A primeira vez que viu o mar foi há uma década, já com quase 60 anos. Ele conta que, antigamente, trabalhador rural não tinha férias e nem tempo pra nada. Por isso, a experiência só aconteceu depois de aposentado. “Achei diferente... no rio a gente domina a água, mas o mar domina a gente”.
Mas confesso que, o mais marcante que ouvi dele ao logo da nossa conversa, não foi o tempo que levou para conhecer o mar e sim, o que pensou ao chegar na praia: "Imaginei, olhando o horizonte, quantos navios carregados de escravos chegavam vindos de lá"!
É... como na composição “Vai Passar”, de Chico Buarque: uma “... página infeliz da nossa história...”
Hoje com 70 anos, seu Deusdedit segue prestando alguns serviços na zona rural de Caçapava e ainda se dedica - aos domingos - à Escola Bíblica da Igreja Assembleia de Deus, além da família. Mas, como todo bom morador da roça, é também um contador de causos e não poderia faltar aqui espaço pra eles.
Nosso personagem não acredita em assombração, mas aconselha: na dúvida, é melhor correr!

Causo do “corpo-seco” e da calça molhada
Chovia muito e Seu Deusdedit havia perdido o último ônibus que passava perto de casa, para voltar do curso noturno de “torneiro mecânico”. O jeito foi pegar outro que deixava no meio do caminho, só que aí, tinha que atravessar uma estrada de terra.
Rezava a lenda que naquele caminho ficava à espera dos transeuntes, o “corpo-seco”, personagem do folclore brasileiro, cuja lenda conta sobre um defunto amaldiçoado que vaga na Terra por não ter sido aceito nem no céu, nem no inferno. Diz o povo local que, quem o encontra tem que oferecer fumo ou cigarro, se não, ele monta nas costas e não larga mais. Como não tinha nenhum, nem outro, o jeito foi apertar o passo pelo caminho e rezar.
O problema foi quando um barulho estranho começou a acompanhar seus passos. Quanto mais acelerava, mais o barulho aumentava. Aí não teve jeito: deu uma carreira e só parou quando chegou ao outro lado.
Foi aí que percebeu que o barulho vinha da lama e do mato da estrada que espirravam e grudavam na barra da calça “boca de sino” (figurino não muito apropriado para aquele dia chuvoso!).
Depois de anos, a história ainda diverte Seu Deusdedit:
“Vê se pode: eu mesmo assombrando eu!”, e cai na risada.
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